Editorial

Clyde Snow, Antropologia Forense e Direitos Humanos na América Latina

Em outubro de 2012 estive presente, como único brasileiro, a uma grande e justa homenagem prestada ao Antropologista Forense norte-americano, Dr. Clyde Collins Snow, por ocasião do VIII Congreso Latinoamericano de Antropología Forense, realizado na Guatemala.

A história recente do nosso continente registrou um longo e tenebroso período em que, sob inspiração da chamada guerra fria, vigorou um forte clima de luta política entre os governos, nem sempre legítimos, e suas oposições. Essa luta, quase sempre apoiada em bases ideológicas opostas, configuradas sobre conceitos de esquerda e direita, capitalismo e comunismo, ditadura e democracia, conduziram a um radicalismo desenfreado de ambas as partes, transportando para o campo armado o cenário dessa disputa essencialmente política. 
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Regimes políticos autoritários, diante de um contexto de conflitos internos e em nome de uma doutrina de segurança nacional, ofereceram como resposta uma violenta repressão a qualquer forma de oposição, conduzindo, por ambas as partes conflitantes algumas vezes, a um sistemático desrespeito aos mais elementares direitos humanos.  

O desaparecimento forçado de pessoas, muitas vezes inocentes, seguido de execuções desprovidas de qualquer sustentação pelas normas jurídicas vigentes, com posterior ocultação de suas identidades sob a tarja de "desaparecidos", representou, sem dúvida, a face mais sinistra e dolorosa dessa luta, perpetuando nas gerações futuras um profundo sentimento de necessidade em reparar essa forma monstruosa de crime.

A quantidade de vítimas dessa barbárie alcança, em alguns países, expressão de verdadeira hecatombe. Na Guatemala, entre meados dos anos 50 e 1996 são estimados cerca de 200.000 mortos por motivação política, dos quais 60.000 seriam desaparecidos. No Peru, são estimadas cerca de 70.000 vítimas fatais do conflito armado interno, entre os anos de 1980 e 2000, dos quais quase metade da responsabilidade das ações do grupo Sendero Luminoso e os demais da responsabilidade de agentes do estado e outros. Dessas vítimas, contam-se aproximadamente 16.000 desparecidos. Na Argentina, grupos defensores de direitos humanos estimam em 30.000, as vítimas fatais do período conhecido como Guerra Suja (1976-1983), com cerca de 5.000 desaparecidos. Praticamente, este fenômeno nefasto atingiu, em maior ou menor intensidade, toda a América Latina, incluindo, ainda que em escala menor, o Brasil.

Em todos esses países, a ação de entidades de cunho nacional, aliadas a outras internacionais, tem exercido forte e continuada pressão pelo desenvolvimento de investigações insuspeitas, objetivando a localização dos corpos dessas pessoas desparecidas que permita, ao menos, levar certeza e paz ao coração angustiado de seus familiares e amigos.

Poderosa ferramenta nesta empreita representa a Antropologia Forense, exercida como ramo da atividade médico-forense em nosso país, que possibilita, pela aplicação de técnicas fundamentadas nos conhecimentos da antropologia física, o estudo e a identificação de despojos humanos, mesmo que carbonizados, mutilados, ou já há muito esqueletizados.

Nesse contexto, o Prof. Clyde Snow exerceu, a partir dos anos oitenta, um papel relevante ao estimular, com sua presença e treinamento, a formação de equipes de antropologistas forenses que, sob sua inspiração direta, se multiplicaram por vários desses países, com a resultante criação das célebres instituições, Equipo Argentino de Antropología Forense, Fundación de Antropología Forense de Guatemala, Equipo Peruano de Antropología Forense e Grupo de Antropología Forense de Chile.  

Nesses países, esses grupos de profissionais por ele formados de forma seminal, cresceram e se desenvolveram, desempenhando hoje, com independência e credibilidade, a missão histórica de resgatar e identificar esqueletos dessas vítimas, oferecendo conforto ao coração de seus familiares e ajudando a reconstruir uma parte sombria da história, que também nos pertence.

Clyde Collins Snow nasceu em 1928 no Texas, obteve seu bacharelado pela  Eastern New Mexico University,seu mestrado em Zoologia pela Texas Technical University e finalmente conquistou seu PhD em Antropologia pela  University of ArizonaNa década de 60 participou da investigação do assassinato do Presidente John F. Kennedy. Quando a American Academy of Forensic Sciences criou, em 1972, sua Seção de Antropologia Física, Clyde Snow estava entre o seleto grupo de 14 antropólogos fundadores. Considerava-se um "osteobiógrafo", indicando que existe uma informação biográfica relevante registrada no esqueleto de um indivíduo, se estivermos capacitados para sua leitura.

Esteve em nosso país, em 1985, juntamente com antropologistas forenses de outras nações, colaborando na perícia que identificou os restos esqueletizados do carrasco nazista Josef Mengele.

Disponibilizou suas habilidades como antropólogo forense ao interesse de milhares de vítimas de regimes violentos, por dezenas de países em quase todos os continentes. Além de sua atividade na América Latina, atuou na Etiópia, no Congo, no Camboja, no Sri Lanka, no Curdistão, num total de 46 países. Testemunhou no julgamento de Saddam Hussein sobre o genocídio cometido contra a população curda do norte do Iraque, no Tribunal para a antiga Iugoslávia e na Corte Interamericana de Justiça, sempre colocando seu vasto e respeitado conhecimento em defesa das vítimas de crimes, perpetrados por razões de alguma forma de intolerância, seja étnica, religiosa ou política.        

Justa e merecida homenagem lhe prestou a ALAF - Asociación Latinoamericana de Antropología Forense neste Congresso. O tanto de carinho e reconhecimento contido nesse preito fez o calejado coração octogenário do velho mestre ser traído pela centelha da emotividade. Restou à fascinante Antigua, repositório da milenar sabedoria Maia, testemunhar a lágrima que lhe desceu pelo rosto sereno ao afirmar que aquele momento, incomum entre tantos outros de sua longa vida, jamais seria esquecido.
Porém, na manhã de 16 de maio deste ano (2014), em Oklahoma, seu generoso coração deixou de bater, provocando certamente muita tristeza por todo o mundo que pode provar de seus profundos e desinteressados conhecimentos, indiscutivelmente sempre à disposição da verdade e da justiça.

Emocionante homenagem póstuma lhe prestou a ALAF, por ocasião de seu X Congreso Latinoamericano de Antropología Forense, recentemente realizado em Santiago do Chile, bem demonstrando, em nome de toda a comunidade científica forense latino-americana, não só a dor por sua perda, mas principalmente o reconhecimento e a gratidão por seus valiosos ensinamentos e pela honestidade do seu envolvimento na luta universal pela salvaguarda dos direitos fundamentais da pessoa humana.         
Nesta pertinente reverência a Clyde Snow, em que todos latino-americanos nos irmanamos, revela-se também de maneira irrefutável a importância do papel desempenhado pela Antropologia Forense, como forma de ciência aplicada sob inspiração do mais elevado interesse social, na construção do caminho à consolidação dos direitos humanos na América Latina.

Luiz Airton Saavedra de Paiva
Mestre e Doutor em Ciências - Faculdade de Medicina-USP
Professor Titular de Medicina Legal - Centro Universitário São Camilo
Presidente do Instituto de Ensino e Pesquisa em Ciências Forenses
Membro da Academia Nacional de Medicina Legal - Cadeira Nº 10

Clyde Snow recebe das mãos da Antropóloga Forense Alicia Luziardo (Uruguay) um mimo, por ocasião de homenagem prestada no transcurso do VIII Congreso Latinoamericano de Antropología Forense, em Antigua, Guatemala.

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